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Intervenção Artística de STYLER em destaque na 5ª edição do Arte na Rua

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24 de Setembro de 2018


STYLER – João Cavalheiro está a desenvolver uma intervenção em grafitti com 11,5m x 5,6 m na fachada sul do Complexo Desportivo Municipal José Afonso, no âmbito da 5º edição do Arte na Rua, projecto da Câmara Municipal que tem como objectivo criar um circuito de Arte Urbana em Grândola.

A Vila Morena apresenta  até ao momento  obras de Street Art da autoria de Smile1 Art – Ivo Santos  ( Pintura Mural com 31mx2m inspirada na Revolução dos Cravos) e João Samina (Pintura  Mural a António Inácio da Cruz  com 32 m2 executada num posto de transformação da EDP).

O Arraial ou Mercado do Gado que se realizava naquele espaço no início do Século XX está a ser representado com a arte do premiado artista urbano e pode ser apreciada ao vivo até 28 de Setembro. STYLER assina um projeto artístico que pretende valorizar e divulgar um valioso património imaterial do nosso Concelho – a tradição e o saber inerente à criação de gado.

A 5º edição do Arte na Rua termina no próximo sábado, 29 de Setembro, dia em que a Praça D. Jorge de Lencastre recebe a partir das 10h uma mostra onde artesãos e artistas locais vão desenvolver ao vivo diversas obras artísticas.

Memória histórica e justificativa do projeto de arte de rua sobre o Cerrado do Arraial

Este projeto artístico pretende recordar e dar a conhecer às gerações atuais a importância que a criação de gado teve neste território ao longo do tempo. A opção por uma representação do arraial, ou mercado de gado, que se realizou, pelo menos, desde o primeiro decénio do século XX, no cerrado existente a sul da cerca do extinto convento dos frades Agostinhos Descalços, prende-se somente com a existência de documentação fotográfica[1].

Na verdade, é de acreditar que a criação de gado esteve presente na região desde o Neolítico pois são vários os monumentos que atestam a presença humana nesse período. A existência da criação de animais e a sua transação possuem raízes longínquas pois o homem, desde que os domesticou, não deixou nunca de os utilizar como importante auxílio em diversos trabalhos.

Dada esta circunstância, sempre que pensamos na evolução ocorrida em Grândola, quer se trate da instituição da Comenda – cerca de 1380 –, quer da concessão da Carta de Vila, em 1544, não podemos esquecer o contributo prestado pelo gado aqui existente. De facto, na era pré-industrial os animais assumiram um papel essencial.

Grândola foi, até ao século XX, inclusive, um concelho predominantemente agrícola. Nos arroteamentos dos campos era usado o gado bovino – as juntas de bois –, o muar, o cavalar e o asinino. A sua importância era tal que uma junta de bois podia ter um valor equivalente ao de uma pequena propriedade rústica.

A feira de Santo António, hoje com a denominação de Feira de Agosto, encontra-se documentada desde 1630, julgando-se que terá tido início alguns anos antes[2]. Decerto que, desde logo, contemplou a compra e venda de gado, sendo que são diversas as referências à existência da corredoura nos séculos posteriores.

Mais tarde, outras feiras e mercados surgiram sabendo-se, nomeadamente, que em 1870 se realizava um mercado de gado suíno no Rossio de São João (Jardins Dr. José Jacinto Nunes e Dr. Júlio do Rosário Costa) em todos os domingos e dias santificados, desde 18 de Dezembro até ao Entrudo[3] e que, em 1876, teve início uma feira de gado vacum no primeiro domingo de abril[4]. O gado suíno teve, na verdade, grande presença em Grândola, mercê da existência dos montados de sobro e azinho, cujos frutos eram um dos seus alimentos privilegiados. Existiu uma verdadeira transumância de varas de porcos que, oriundos das mais variadas partes do Alentejo – e até da Estremadura espanhola – demandaram, nos anos de boa produção de lande e de bolota, os montados grandolenses. Paralelamente, os lavradores locais também tinham na criação de porcos uma das mais importantes fontes de rendimento[5].



[1] Arquivo Municipal de Grândola, Fundo Câmara Municipal de Grândola, Atas das vereações, liv. AB1/73, fl.16, 1909.12.08 (PT/AMGDL/CMGDL/AB/1/00077). O topónimo Cerrado do Arraial figura nesta data numa ata das vereações como sendo o limite sul da Cerca do Convento que a Câmara pretendia adquirir a Luís Alves Serrano para a construção de um novo bairro habitacional.

[2]  Idem, liv. AB1/6, fl.37v, 1630.08.16 (PT/AMGDL/CMGDL/AB/1/00010). De referir que a feira de Grândola começou por ter lugar no último domingo de agosto, sendo alargada a mais dias até ao presente mas não tendo sofrido alteração de calendário.

[3] Idem, liv. AB1/62, fl.149, 1870.01.05. (PT/AMGDL/CMGDL/AB/1/00066).

[4] Idem, liv. AB1/63, fl. 126 v, 1876.11.08 (PT/AMGDL/CMGDL/AB/1/00067).

[5] Idem, liv. AB1/68, fl. 157v, 1898.10.08 (PT/AMGDL/CMGDL/AB/1/00072). Em ofício-resposta enviado pela Câmara Municipal ao Governador-Civil foi afirmado que o concelho de Grândola é quase que exclusivamente agrícola, destacando entre as suas fontes de riqueza a cortiça e a engorda de gado suíno.

Corroborando a relevância da criação de gado no Concelho a Câmara Municipal iniciou em 1913, na Feira de Agosto – que então decorria durante três dias -, uma exposição de gados bovino, caprino, suíno e asinino atribuindo prémios aos expositores que melhores exemplares apresentassem[1].

Em conclusão: a representação artística (graffiti) em questão procura valorizar e divulgar um valioso património imaterial do nosso Concelho – a tradição e o saber inerente à criação de gado.



[1] Idem, liv. AB1/74, fl. 156v, 1914.05.07 (PT/AMGDL/CMGDL/AB/1/00078).